marcelo

Anat Cohen e Marcello Gonçalves trazem no disco Outra Coisa uma nova perspectiva para a música de Moacir Santos, um dos mais inovadores e influentes compositores brasileiros, no ano em que se comemoram seus 90 anos.

Os timbres do clarinete e do violão de 7 cordas se unem para dar leveza, elegância, alegria, prazer e liberdade à sua música.

Um encontro entre um violonista brasileiro e uma musicista de Jazz, tocando uma música que já nasce cosmopolita, como se a negritude da música de Moacir amalgamasse diferentes culturas.

O resultado soa curiosamente familiar tanto para brasileiros quanto para americanos, como talvez só haja paralelo em Getz/Gilberto.

No caso de Anat isto fica ainda mais intenso porque seu próprio estilo já é forjado a partir desta soma de influências. Desde a música clássica até o Jazz, passando pela música brasileira, colombiana, venezuelana, cubana.

O estilo orquestral do violão de 7 cordas de Marcello Gonçalves possibilita que as ideias contrapontísticas de Moacir sejam incorporadas na própria condução rítmica, além de um diálogo constante com a melodia, em um efeito camerístico raro.

Como se a música tivesse sido composta desta maneira. Como se clarinete e violão fossem o esqueleto a partir do qual Moacir construísse suas versões orquestrais.

Ouvida desta forma, a obra de Moacir Santos ganha outro sabor.

Outra Coisa é um disco fiel a Moacir, na sua precisão de escrita e também na liberdade que sua música sugere.

Clarinete e violão são instrumentos importantes na história de Moacir.

Se o clarinete foi seu primeiro instrumento, foi o violão de Baden Powell que gravou pela primeira vez sua obra.

Baden Powell estudou com Moacir Santos. A série dos Afro-Sambas surgiram a partir dos exercícios de composição das aulas com Moacir.

É como se houvesse uma ligação de Moacir com o violão ainda não explorada, que até então estava no imaginário apenas pelas gravações de Baden Powell e pelos Afro-Sambas.

Outra Coisa coloca Moacir Santos na tradição da música escrita para violão no Brasil.

 

DEPOIMENTOS

Com uma certa experiência em trabalhos musicais que envolvem uma dose de arqueologia, tenho quase certeza de que Anat Cohen e Marcello Gonçalves tiveram um encontro transcendental com Moacir Santos. Digo isso pela alegria que vi nos olhos dos dois, já vi nos de Moacir e dá para sentir os três se transformando em música.

Anat e Marcello são artistas experientes, com assinaturas bem definidas. Podem ser considerados virtuoses (amorosos) de seus instrumentos pelo talento, conhecimento, qualidade de som e pelo carinho com que cuidam de cada nota e fraseado musical.

Moacir é um caso raro, de menino nascido pobre no sertão de Pernambuco e que foi guiado pela música, transpondo todo o tipo de barreiras da vida até se tornar um músico universal, que ainda precisa ser reconhecido no Brasil e no mundo.

Ainda menino chamou a atenção de mestres e músicos de bandas das pequenas cidades do interior pelo seu virtuosismo no clarinete. Suas melodias soam como se tivessem sido compostas para o instrumento. Anat parece seguir à risca e com uma brasilidade universal o mapa do tesouro deixado por ele.

Marcello, com seu violão de sete cordas, faz o papel de orquestra, tocando arranjos complexos como se fossem a coisa mais fácil do mundo. Lembra outro menino, virtuose do violão, que era chamado carinhosamente pelo maestro Radamés Gnattali de “o menino do chinelo”, por ter começado muito novo na Rádio Nacional: Baden Powell. Baden, como ele mesmo dizia, tinha aulas de “música superior” com Moacir no início dos anos 60 e, não por acaso, foi o primeiro artista a gravar as músicas do professor (Coisa nº1 e Coisa nº2).

Marcello e Anat soam como amalgamation, palavra que Moacir adorava e batizou uma de suas incríveis composições.

Tive a sorte de poder ouvir diversas vezes e vou continuar ouvindo sempre esse encontro, que considero uma felicidade, alegria rara!

Mario Adnet, junho de 2016

A relação entre Moacir Santos e o violão está presente em meu imaginário desde que ouvi as gravações de Baden Powell de duas músicas de Moacir no disco “Baden Powell swings with Jimmy Pratt.”

Sempre amei os ricos sons orquestrais das composições de Moacir, mas não conseguia imaginar como transcrever para meu violão a grande variedade de sons que ouvia. No último ano, lendo as partituras de Moacir Santos diretamente de seu songbook, tive a surpresa de ver como elas se encaixavam perfeitamente no violão de 7 cordas, no tom original, como se tivessem sido compostas para o instrumento.

Fiquei um ano trabalhando nesse repertório e, quando Anat esteve no Brasil, propus nos encontrarmos para lhe mostrar os arranjos que estava trabalhando. Clarinete foi o primeiro instrumento de Moacir. Se suas composições soavam tão bem no violão, só poderia imaginar o quão especiais elas soariam tocadas por Anat no clarinete. Anat propôs que marcássemos diretamente em um estúdio de gravação, e assim fizemos. Quando começamos a tocar, Anat, que me conhece há anos, disse: “Eu nunca te vi tão feliz!” Eu respondi: “Sim, eu nunca estive!” Essa gravação documenta dois dias felizes no estúdio.

Espero que vocês gostem de ouvir essa música tanto quanto nós gostamos de tocá-la.

Marcello Gonçalves, Julho de 2016

 

Anat Cohen

A clarinetista e saxofonista Anat Cohen ganhou corações pelo mundo inteiro com sua virtuosa expressividade e deliciosa presença de palco. Foi eleita a Clarinetista do Ano por nove anos consecutivos pela Jazz Journalists Association, o mesmo acontecendo, desde 2011, tanto na eleição dos críticos quanto na dos leitores da revista DownBeat.

Viajou pelo mundo como atração principal em festivais como o de Newport, Umbria Jazz, SF Jazz e o North Sea, além de ser presença frequente nas principais casas de Jazz e salas de concerto do mundo.

Em seus shows pode-se observar sua fluência entre o estilo crioulo de Nova Orleans, ritmos africanos, o samba e o choro do Brasil. Anat nasceu em Tel Aviv, Israel, e foi criada em uma família musical. Ao se mudar para Nova Iorque em 1999, após se formar na Berklee, passou uma década em turnê com a Diva Jazz Orchestra; também trabalhou em grupos brasileiros como o Choro Ensemble e o Duduka Da Fonseca’s Samba Jazz Quintet. Fundou seu próprio selo, o Anzic Records, em 2005 e deslanchou sua carreira discográfica como líder de banda, com Place & Time. Em 2007 lançou Noir (com uma orquestra de jazz) e Poetica (jazz de câmara e clarinete). Seus discos foram listados como os melhores do ano pelo New York Times e por revistas especializadas de Jazz.

Em Março de 2015, a Anzic Records lançou Luminosa, seu sétimo disco solo. Em Luminosa Anat toca suas melódicas e suingadas composições, interpreta compositores clássicos da música brasileira como Milton Nascimento, e mesmo re-imagina a eletrônica como acústica com o engenhoso arranjo para a música Flying Lotus.

“Anat does what all authentic musicians do: She tells stories from her own experiences that are so deeply felt that they are very likely to connect listeners to their own dreams, desires and longings.” — Nat Hentoff

The New York Times said: “Notes From The Village is a resounding confirmation – yes, she is the real deal.”

The Washington Post: “Cohen has emerged as one of the brightest, most original young instrumentalists in jazz. . . with a distinctive accent of her own.”

DownBeat magazine stated that “Cohen makes it seem easy, mixing a gift for melody with an improvisational fluidity that has few peers today.” “Cohen not only proved to be a woodwind revelation of dark tones and delicious lyricism, but also a dynamic bandleader who danced and shouted out encouragement to her group – whooping it up when pianist Jason Lindner followed her clarinet trills on a Latin-flavored number. . . With her dark, curly, shoulder-length hair swaying to the beat as she danced, she was a picture of joy.”

Para maiores informações visite http://www.anatcohen.com

 

Marcello Gonçalves

É um dos mais celebrados violonistas de 7 cordas do Brasil. Seu estilo une a espontaneidade e malícia da música popular com a sonoridade e o acabamento da música clássica.
Participa como violonista, arranjador e Diretor Musical dos seguintes trabalhos:
Trio Madeira Brasil, com o qual participou do Free Jazz Festival, gravou especial para a TV Francesa com Baden-Powell e realizou show com Egberto Gismonti no Sesc-Pompéia (SP), além de receber as indicações de “Melhor Disco” e “Melhor Grupo” no prêmio Sharp. Realizou turnês por todo o mundo, incluindo participações nos Festivais de Guitarra de Santo Tirso, Rock in Rio-Lisboa, Berlin Jazz-Fest e Patrimonio, na Córsega. O grupo lançou CDs em parceria com o cantor Zé Renato e com o grande compositor brasileiro de Samba Guilherme de Brito, trabalho este indicado para o prêmio TIM, na categoria “Melhor Disco de Samba”.

Grupo Rabo de Lagartixa, com o qual gravou os CDs Rabo de Lagartixa e Papagaio do Moleque, este último totalmente dedicado à obra de Heitor Villa-Lobos, indicado ao Prêmio da Música Brasileira, categoria “melhor grupo”.

Duo com o cavaquinista Henrique Cazes, com o qual gravou os CDs Pixinguinha de Bolso, totalmente dedicado à obra de Pixinguinha e Vamos Acabar com o Baile, sobre a obra de Garoto.

Cds/DVDs Batuque, Cartola e Canto em Qualquer Canto, do cantor Ney Matogrosso.

Direção Musical do Longa-Metragem Brasileirinho, documentário sobre Choro dirigido pelo finlandês Mika Kaurismaki, que teve sua estréia em Fevereiro de 2005 no Festival de Berlim e foi exibido em salas de cinema de mais de 20 países.

Produção, Direção Musical e Arranjos do CD/DVD Uma Noite Noel Rosa, com participações de Roberta Sá, Ney Matogrosso, Zé Renato e Rodrigo Maranhão.

Produção Musical e Direção Artística do CD YV, de Yamandú Costa e Valter Silva.

Diretor Musical do CD “Quando o Canto é Reza”, de Roberta Sá e Trio Madeira Brasil, sobre a obra de Roque Ferreira, vencedor do Premio da Música na categoria Melhor Disco de MPB.

Produção, Direção Musical e arranjos do CD Até Pensei que fosse minha, do cantor português António Zambujo, dedicado à obra de Chico Buarque.